Viagem a Mértola e Vale do Guadiana

6 Dezembro, 2012

Decorria o ano de 2007 e ainda dava os primeiros passos pelo mundo da fotografia de paisagem quando conheci alguns dos locais mais icónicos de Mértola e que até então apenas faziam parte do meu imaginário. Durante essa viagem fotográfica que realizei, a primeira, conheci a região durante a Primavera e fiquei simplesmente deslumbrado com a sua beleza e diversidade. Nomes como o Pulo do Lobo ou a Mina de São Domingos, até então, apenas conhecia de breves diálogos mantidos com o meu pai.

Uma das curiosidades sobre o Pulo do Lobo é que segundo os locais, é possível passar de uma margem para a outra apenas com um salto. Para mim continuará um mistério uma vez que não tentei o famoso salto. Aqui o Guadiana está envolto em grandes escarpas, e a tradicional planície alentejana é substituída pela montanha. Um abrupto desnível no leito do rio dá origem a uma das mais belas cascatas do Alentejo.

Fotografia de Juvenália Dorotea

Ainda hoje perdura na minha memória a forma como um antigo mineiro me fitava com o seu olhar e meticulosamente me contava as histórias associadas a esse local, todas elas com conexão ao contrabando. Os seus olhos humedeceram quando o questionei sobre a antiga mina, afinal havia sido o seu lar por tantos e tantos anos. Com orgulho e um saudosismo tremendo lá foi relembrando os seus tempos de mineiro.

A Mina de São Domingos apresenta um cenário apocalíptico que nos transporta para filmes que fazem alusão a um pós fim do mundo. Não admira por isso que alguns meses após esta minha viagem constato que o novo vídeo de nome “Battle of Tribes” de uma das mais enigmáticas bandas portuguesas, os Blasted Mechanism, foi todo ele gravado na Achada do Gamo, a zona da antiga fundição da mina. Esta atitude por parte da banda portuguesa colocou a antiga mina de forma definitiva no mapa turístico de Portugal, tal a curiosidade que suscitou sobre o local onde o vídeo foi filmado.

Fotografia de Pedro Bello

Do workshop do passado dia 1 de Dezembro, fica a memória de 2 fabulosos dias com 7 magníficos participantes. Tudo começou no sábado de manhã, no salão nobre da Câmara Municipal de Mértola. Sendo este um grupo, por assim dizer, de repetentes, a parte de técnica fotográfica foi colocada de lado e a sessão teórica foi toda ela dedicada à composição, à luz e às suas diferentes formas e, não menos importante, às orientações no sentido de pensar antes de fotografar. Os resultados da importância desta sessão viriam horas mais tarde…

Guiados pela simpatia e cordialidade da Mara, a nossa guia, viajámos no tempo e fomos de encontro a uma Mértola repleta de história. Os museus, a Alcáçova e a Igreja Matriz levam-nos aos tempos da ocupação muçulmana e romana. Os detalhes e os grafismos fizeram as delícias dos fotógrafos. Neste conjunto, o meu preferido é a Igreja Matriz… adoro aquele tecto!

Fotografia de Carlos Pinto

Após um rápido almoço, deixámos Mértola para trás em direcção a Serpa. Ainda se avistava a vila no espelho retrovisor quando mesmo à nossa frente uma placa indica o caminho para o famoso Pulo do Lobo. A minha serenidade contrastava com a natural impaciência dos participantes, ávidos de satisfazerem a sua curiosidade e finalmente serem brindados com a beleza da deslumbrante cascata. Um bonito ocaso do sol teve lugar para gáudio dos 7 magníficos e quando a luz o permitiu todos ia adorando as imagens obtidas com o efeito das longas exposições.

Fotografia de Teresa Marques

Ao jantar a tradicional comida alentejana como a sopa de cação, as migas com entrecosto frito ou o gaspacho estavam divinais e foram um verdadeiro manjar dos deuses. Foi já com o estômago aconchegado que fizemos a habitual sessão de análise fotográfica deste primeiro dia de trabalhos. Foi uma fase de grande interactividade entre todos. As opiniões de cada um foram fundamentais nesta sessão que visa essencialmente chamar a atenção para situações que se podem e devem corrigir.

O amanhecer de domingo de manhã foi fotografado na praia fluvial da Mina de São Domingos. Esta pequena barragem e no pico do Verão traz-me à memória as praias da Caparica, tal a quantidade de pessoas que a procura para se refrescar. Nesta época do ano é muito mais calma e tranquila e apenas o barulho longínquo dos disparos dos caçadores quebrava o silêncio ensurdecedor que se fazia sentir. O vento não soprava e à nossa frente tínhamos um enorme espelho que reflectia tudo o que o rodeava. Apesar dos 4 graus de temperatura e perante um cenário destes ninguém arredou pé. A neblina matinal que entretanto se envolvia na paisagem, foi suavemente trespassada pelos primeiros raios de sol. Era tempo de aproveitar para fotografar e captar todo este cenário idílico.

Fotografia de Isabel Crispim

Por falar em cenário: “Estamos mesmo em Portugal?!” Terão pensado os nossos participantes quando avistaram a Corta da antiga mina! Estávamos no sítio de onde o minério era extraído e mais fazia lembrar a cratera de um vulcão. Um enorme buraco repleto de água reflectia a panóplia de cores que constitui a falésia que o circunda. Rapidamente a incredulidade por tal paisagem foi substituída por uma vontade imensa de fotografar.

Fotografia de Filipe Rodrigues

Caminhávamos a passos largos para o final de mais um workshop mas ainda faltava visitar talvez o mais enigmático local da região: a Achada do Gamo, onde se encontra a antiga fundição da mina. A degradação dos edifícios naquela paisagem inóspita juntamente com a aridez do terreno contrastava com as pequenas poças de água que ali resistiam e que assumiam uma cor alaranjada ou avermelhada. Era um mundo de oportunidades fotográficas onde ao virar de cada ruína um novo motivo nos cruzava o olhar.

Fotografia de Kady Kounta

Equipamento guardado nas mochilas e era tempo de regressar ao sossego e aconchego do lar, e é precisamente nessa altura que sou desafiado pelos 7 magníficos para fazermos um novo almoço convívio, desta vez em Serpa, a caminho de Lisboa. Era impossível resistir e dizer que não!

Antes de finalizar este já longo texto, uma palavra de apreço para o incansável Manuel Passinhas, da autarquia de Mértola. A sua colaboração e apoio foram fundamentais para a realização deste evento! O nosso Muito Obrigado!

No último workshop de 2012 vamos passear pelas ruas de Lisboa e captar as luzes de Natal. Não o convidamos para vir porque o workshop já está esgotado. Mas aos presentes garantimos bolo-rei, café e chá.